Depois de mais de R$ 3 bilhões serem investidos por órgãos públicos na preparação dos atletas para os Jogos do Rio, o panorama financeiro do esporte brasileiro com vistas à Olimpíada de Tóquio, em 2020, é de contração.

Empresas estatais já têm divulgado cortes significativos para os próximos anos ou adiado anúncios porque tratativas andam a passo lento.

O vôlei conquistou, na quadra e na praia, três medalhas na Olimpíada de 2016, das quais duas de ouro e uma de prata. Nem isso impediu um encolhimento da verba.

O Banco do Brasil repassará R$ 218 milhões à CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) ao longo dos próximos quatro anos, R$ 84 milhões a menos do que dera no ciclo Londres-Rio (R$ 302,7 milhões).

A redução já era prevista e a CBV impôs desde a entrada do diretor-executivo Ricardo Trade política interna de corte de custos para amenizá-la.

O banco decidiu aumentar o repasse para a Confederação Brasileira de Handebol nos próximos dois anos, mas não sabe se manterá o patrocínio ao velejador bicampeão olímpico Robert Scheidt, com quem tem vínculo desde 2001. O contrato entre eles se encerrará em fevereiro.

Com prejuízo de R$ 2 bilhões previsto para 2016, os Correios também farão arrocho de grande proporção em sua rubrica de patrocínio.

Por ora, só o contrato com a Confederação Brasileira de Tênis foi renovado, mas até 2018. O corte foi de 75% em relação ao contrato anterior.

A entidade receberá R$ 2 milhões por temporada -costumava receber R$ 8 milhões.

Os Correios também disseram que extensão dos contratos com a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos e com a Confederação Brasileira de Handebol está “em fase de negociação”.

As duas entidades sabem que verão verbas minguarem. A CBDA está ciente de que não terá nem metade dos R$ 95 milhões do ciclo passado. “Apesar do momento financeiro desfavorável para a estatal, o investimento será mantido, com valores reduzidos”, disseram os Correios.

A Petrobras teve perda de R$ 16,4 bilhões no terceiro trimestre deste ano e disse que faz “análise e avaliação de todo o programa de patrocínio esportivo no que diz respeito às modalidades olímpicas, para posterior decisão quanto ao novo ciclo olímpico”.

A petroleira investiu mais de R$ 50 milhões até 2016 em confederações e em um grupo de atletas escolhido para formar seu “time” -do qual fez parte o canoísta Isaquias Queiroz, que deixou os Jogos do Rio com três pódios-, mas agora sinaliza forte redução.

A Caixa começou a negociar com confederações no fim de novembro e prevê anunciar sua decisão até janeiro. O banco apoiou com R$ 270 milhões, de 2013 a 2016, quatro entidades (atletismo, ginástica, lutas e ciclismo) e o Comitê Paralímpico Brasileiro.

Furnas, que repassou R$ 2 milhões a cerca de 22 atletas na reta final para a Rio-2016, disse que sua ajuda ao esporte “está sendo revista”.

Juntas, estas cinco estatais puseram mais de R$ 650 milhões no esporte no último ciclo olímpico.

TEMOR

A recessão econômica e a fuga de investimentos no esporte têm prejudicado atletas do país na busca por renovação de contratos pessoais de patrocínio até os Jogos de Tóquio, em 2020. Nem mesmo medalhistas olímpicos escapam.

O atirador Felipe Wu, que nos Jogos deu ao país a primeira medalha na modalidade em 96 anos (prata), tem um apoiador que ajuda com munição, mas prevê incertezas à vista.

Ele acredita que um problema financeiro pode afastá-lo do esporte.

“Por enquanto pretendo continuar no esporte, mas se acontecer de eu não ter nenhum patrocínio, terei de repensar”, disse Wu.

Ouro em Londres-2012 e prata na Rio-2016, Arthur Zanetti tem tido dificuldades para renovar apoios.

Até a última Olimpíada, dez empresas lhe davam recursos. Até agora, ainda não renovou os vínculos.

“Só temos a agradecer aos patrocinadores. Mas prevemos grandes dificuldades. A tendência é de dificuldade para renovação. Não é diferente do mundo empresarial. A recessão bate à porta de todos”, afirmou o empresário do ginasta, Marcel Camilo.

Outros dois atletas que agencia, a também ginasta Flávia Saraiva e o lutador de taekwondo Maicon Andrade -bronze na Rio-2016-, também não fecharam com patrocinadores para os próximos anos.

Uma das revelações da natação brasileira, Luiz Altamir, que esteve nos Jogos do Rio, afirmou que “não tem patrocínio e está em busca de algum”. “Encararia isso como desafio, mas chega um ponto que realmente não dá”, comentou.

O temor não se restringe ao esporte olímpico. O ciclista Lauro Chaman, que deixou a Paraolimpíada com duas medalhas, espera que o investimento geral “até aumente”.

“Mas, sem recurso, o atleta pode ter de trabalhar. É difícil ter o mesmo rendimento desta maneira”, afirmou.